Uma vertical de safras históricas de Ramos Pinto Duas Quintas Reserva

ramos615Aconteceu ontem em São Paulo, uma degustação de seis safras históricas de Duas Quintas Reserva, organizada pela Franco Suissa de Alfredo Srour, importadora dos vinhos Ramos Pinto, comandada por João Nicolau D’Almeida, o criador do Duas Quintas Reserva e responsável pela Ramos Pinto.

Duas Quintas Reserva, precursor do vinho de mesa no Douro

Em 1976, João Nicolau D’Almeida retorna ao Douro – após estudar enologia em Bordeaux com Emile Peynaud – e cheio de vontade de fazer vinho de mesa no Douro. Foi muito criticado, pois na época não havia interesse no Douro por qualquer tipo de mudança ou novidade.

Mas com a passagem da Ramos Pinto para a Louis Roederer, João Nicolau D’Almeida recebeu o incentivo para produzir vinhos de mesa para o mercado. E assim engarrafou 80 mil garrafas do vinho Duas Quintas Reserva em 1990 e em 1991 o vinho já recebia boas notas da Wine Spectator.

Em 1992 começa com vinhos brancos com as variedades Viosinho, Rabigato e Arinto.

As cinco variedades selecionadas para fazer o Duas Quintas foram Touriga Nacional, Tinto Cão, Tinta Roriz, Tinta Barroca e Touriga Francesa e foram plantados 2.500 hectares em Ervamoira com estas variedades. E até hoje muitos dos tintos da região são um corte dessas variedades.

As safras de Duas Quintas Reserva 2010 e 2011 contam hoje em seu corte com uma proporção maior de Touriga Nacional, por volta de 70% a 80%. As demais castas são Tinto Cão, Tinta Roriz, Tinta Barroca e Touriga Francesa. E a safra de 2011 recebe também a Tinta da Barca.

A partir de 2010 tem-se usado o carvalho austríaco em vez do francês, porque o austríaco enaltece o fruto, não sobrecarrega em madeira e dá certa complexidade ao vinho.

Como nos disse ontem João Nicolau, “quem tem que falar é a fruta, é a uva. O carvalho austríaco deixa o vinho respirar”.

O Duas Quintas Reserva tem média de preço de R$230 nas lojas especializadas como Venews, Sta. Luzia e Emporio Diniz em São Paulo. No Rio de Janeiro, a Mundial.

Notas de degustação

As safras de 1994, 1997, 2000 e 2005 vieram em garrafas magnum.

Todas as safras estão magníficas. As mais velhas eclipsam as mais novas, pois estão prontas, e a de 2005, no auge.

A de 1994 com seus 20 anos está muito bem. A de 2005 é o marco divisório, por assim dizer: aroma mais vivo em relação às anteriores. Uma safra no auge de sua maturidade e potencial.

As de 2010 e 2011, em comparação com as mais velhas, ainda estão jovens.

Duas Quintas Reserva  1994

10% passou em  carvalho português

Ainda com muita fruta no nariz. Um tinto evoluído, complexo com notas terciárias, toque balsâmico.

Duas Quintas Reserva  1997 !!!++

Evoluído, notas licorice, aromas de frutas maduras quase geléia de bem maduro. Já conta com 40% de touriga nacional em seu corte. Notas de pimenta e especiarias. Complexo.

Duas Quintas Reserva 2000  !!!++

Mais jovem e muito elegante. Inteiraço! 60% de touriga nacional.

Duas Quintas Reserva 2005 !!!++

Fruta mais complexa. Muito complexo. Taninos ainda presentes e finos.

Um marco entre as safras mais antigas e as novas. Aromas mais vivos e marcados.

Duas Quintas Reserva 2010 !!!

Fruta madura e ainda jovem. Bem encorpado e estruturado.  Barrica nova de 2 anos e austríaca. Bela acidez. Para beber já e para guarda.

Duas Quintas Reserva 2011

Aqui foi acrescentada a casta Tinta da Barca para dar certa complexidade.

Maior concentração de frutas. Um tinto jovem para guarda e um grande prazer harmonizado com pratos mais encorpados.

Para saber mais

Para a Wine Spectator, em artigo sobre o Douro, João Nicolau D’Almeida é uma das guiding lights, um dos luminares do Douro, precursor do vinho fino de mesa do Douro. E o respeitado crítico britânico, Hugh Johnson, é quem sublinha que a Ramos Pinto foi uma das primeiras casas do Porto a produzir vinhos finos de mesa com o rótulo Duas Quintas e sob a direção de Almeida.

Almeida voltou de Bordeaux sonhando em fazer vinhos de mesa no Doura e,provavelmente, se inspirou em seu pai, Fernando Nicolau D’Almeida, o enólogo do mítico Barca Velha da Casa Ferreirinha, certamente o primeiro vinho fino de mesa do Douro, produzido desde os anos 50 do século passado.

Entretanto, Barca Velha era a exceção que confirmava a regra: no Douro se fazia vinho do Porto e ponto. Mas João Nicolau D’Almeida, que havia estudado em Bordeaux e fora aluno de Emile Peynaud, tinha por ideal fazer vinhos de mesa ali mesmo no Douro.

Na esteira da persistência, estudos e empenho de Almeida vieram outros, entre eles os autodenominados Douro Boys, um grupo de jovens do Douro determinados a fazer grandes vinhos – e estão fazendo! – e ganhar o mundo.

Mas como começou esta revolução do vinho fino do Douro?

Até onde chegou minha pesquisa, a grande virada do Douro se deu mesmo com João Nicolau D’Almeida.

João Nicolau D’Almeida volta a Portugal depois de estudar enologia em Bordeaux e vai trabalhar na Ramos Pinto com o tio Jose Antônio Ramos Pinto, que estava muito preocupado com o abandono da viticultura do Douro e com a falta de conhecimento sobre as castas do Douro. Fazia-se o que o vizinho também fazia, não havia uma ciência, não havia uma evolução.

À época havia uma quinta ainda virgem no Douro, a Quinta da Ervamoira e o tio a queria para plantar de uma maneira moderna e sem os erros que se cometiam na região.

Em 1976, João Nicolau D’Almeida encarregou-se de estudar as variedades do Douro. E propôs que o estudo incluísse não somente as variedades destinadas ao vinho do Porto como também as de vinho de mesa. Afinal, filho de quem era e tendo estudado em Bordeaux, tinha o anseio de produzir vinhos de mesa finos na terra do vinho do Porto, que escândalo!

Ervamoira, a primeira Quinta planejada do Douro

Começou a estudar as castas mais adequadas ao vinho do Porto e ao vinho de mesa; plantou-as na Quinta da Ervamoira com talhões separados, o que era uma novidade. Estudaram itens como porta enxerto, a mecanização, a poda, o sistema de condução, toda a parte vitícola e, assim, Ervamoira se tornou a primeira quinta planejada, a primeira quinta do Douro a ser planejada para fazer vinho do Porto e de mesa.

A Ramos Pinto decidiu então divulgar os resultados de seus estudos para todo o Douro. Fizeram uma comunicação dos resultados em 1981 na Universidade de Vila Real, apresentando as cinco variedades selecionadas para fazer vinho do Porto e de mesa, tipos de mecanização, plantando em alto e não mais na horizontal e outras inovações.

As cinco variedades selecionadas eram Touriga Nacional, Tinto Cão, Tinta Roriz, Tinta Barroca e Touriga Francesa e foram plantados 2.500 hectares em Ervamoira com estas variedades. E até hoje muitos dos tintos da região são um corte dessas variedades.

João Nicolau D’Almeida sofreu muitas criticas, pois não havia no Douro disposição para mudanças. Criticou-se seu estudo e sua proposta de fazer vinho de mesa fino. Entretanto, muita gente começou a visitar a Quinta da Ervamoira por curiosidade. Entre eles David Bervistock, o hoje conhecido enólogo australiano radicado em Portugal.

Quem nos conta é Sophia Bergqvist, proprietária da Quinta de La Rosa. David Bervistock era na época enólogo dos Symingtons e tinha interesse em fazer vinhos de mesa, mas naquele momento os Symingtons ainda não estavam interessados. Entretanto o liberaram para fazer vinho de mesa na Quinta de la Rosa, em 1990, e que veio a ser uma das primeiras casas do Douro, junto com Ramos Pinto, a produzir vinhos de mesa finos.

 

O grande incentivo para o vinho de mesa do Douro veio do Banco Mundial que ia fazer um empréstimo para a viticultura do Douro. Mas para efetivar o empréstimo, havia necessidade de estudos. E é aí que entra o estudo pioneiro de João Nicolau, que é apresentado ao Banco Mundial.

A esta altura a Ramos Pinto, uma casa pequena, já produzia pequena quantidade vinho de mesa, mas a ideia era produzir para o mercado, pois já estavam fazendo para consumo próprio.

Por volta desta época a Ramos Pinto com 25 sócios herdeiros já vivia certas dificuldades de tomadas de decisão e em 1990 a Louis Roederer compra 51% da Ramos Pinto e convida João Nicolau D’Almeida para assumir a direção da Ramos Pinto, onde se encontra até hoje.

João recebe o incentivo da Roederer para produzir vinhos de mesa para o mercado. E assim engarrafa 80 mil garrafas do vinho Duas Quintas Reserva que já em 1991 recebe boas notas da Wine Spectator.

Em 1992 começam com vinhos brancos com as variedades Viosinho, Rabigato e Arinto.

Por volta do ano 2000 todas as casas do Douro já estavam fazendo vinho de mesa de forma planejada. Foi um boom, uma explosão.

A Ramos Pinto é importada com exclusividade pela Franco Suissa.

About silviafranco

Wine writer.
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