Agrotóxicos: riscos à saúde a longo prazo ainda mal avaliados

Image
Os riscos a longo prazo dos pesticidas à saúde humana ainda são mal avaliados e a regulamentação que rege o seu uso é discutido. Mas os cientistas já estão soando o alarme.
 
 
A toxicidade de certos pesticidas é muito maior do que a estimada nos testes regulatórios, como afirma em um estudo sobre o controverso Pr Séralini? Se será necessário investigar mais a fundo, a avaliação dos riscos a longo prazo destes produtos é considerada insuficiente.
 
“No processo de avaliação dos produtos fitofarmacêuticos, há claramente espaço para melhorias “, disse Marc Mortureux , o diretor da Agência de Saúde da França (Anses), que tem feito da exposição dos trabalhadores agrícolas aos pesticidas uma das suas prioridades para 2014, ao mesmo tempo em que as ligações com doenças crônicas vêm sendo cada vez mais documentadas.
 
Quanto aos produtos químicos , a avaliação de pesticidas evolui à luz das mais recentes técnicas e melhor conhecimento sobre os seus impactos.
 
Segundo Marc Mortureux : 75% das moléculas autorizadas há 20 anos, já não o são mais, especialmente desde a entrada em vigor de uma nova regulamentação europeia em 2011. Em 2012, havia 416 substâncias ativas fitofarmacêuticos (moléculas) aprovadas na União Europeia e 309 em França .
 
 Autorizado de início para depois perceber que se tem um problema
 
Mas de acordo com Jean -Marc Bonmantin , pesquisador da CNRS especializado em produtos neurotóxicos, “nós colocamos um pouco o carro na frente dos bois: permite-se em primeiro lugar, para depois perceber que podemos ter um problema . “
 
Foi o caso de produtos como o DDT, o lindano, o arsenito de sódio ou clordecone, reconhecidos depois de décadas de uso como cancerígenos e proibidos. “Com as novas moléculas, tipo nicotinoids, por exemplo, as descobertas científicas são feitas na velocidade da ciência, i.e., levam anos e os regulamentos também levam tempo para serem implementados e nem sempre estão à altura dos desafios “, diz Bonmantin , com sede em Orleans.
 
INSERM (Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica ) relata que “um pesticida destinado a lutar contra uma praga apresenta um potencial tóxico mais ou menos estensivo a outros organismos que não são o alvo potencial “, porque “não existe um  pesticida completamente específico para uma praga. “Avaliar a toxicidade para seres humanos e animais selvagens desses produtos cujo uso explodiu nos últimos 50 anos é um grande problema de saúde pública”.
 
Em uma síntese dos estudos existentes sobre os efeitos na saúde, publicado no verão de 2013, Inserm indica que o “perfil de toxicidade aguda (a curto prazo) da maioria dos pesticidas é bastante conhecido” : intoxicacões imediatas, alergias, problemas dermatológicos e respiratórios.
 
Dúvidas sobre os efeitos a longo prazo da exposição a pesticidas
 
Mas continua Inserm, “as principais questões hoje consideram os efeitos a longo prazo da exposição a agrotóxicos sobre a saúde mesmo em doses baixas”. Esta observação é baseada na crescente evidência de ligações entre determinadas doenças crônicas (câncer de próstata, alguns linfomas, doença de Parkinson) e exposição ocupacional (agricultores , jardineiros, etc.) .
 
Problemas de fertilidade também foram relatados em homens expostos a certas profissões, assim como em crianças ainda no útero com um aumento do risco de leucemia, tumores cerebrais e má formação genital.
 
Neste contexto de crescente preocupação, o biólogo Gilles- Eric Séralini com sua equipe da Universidade de Caen
lançou no final de janeiro um estudo in vitro, segundo o qual, oito de nove pesticidas comuns vendidos para jardineiros e agricultores, são 2 a 1.000 vezes mais tóxicos do que os princípios ativos testados in vivo a médio e a longo prazo. “
 
Para o pesquisador, autor de um estudo polêmico em 2012 sobre milho transgênico e inseticida Roundup,  não aprovado pelas autoridades de saúde,  “há um mal-entendido sobre a toxicidade real de pesticidas”. O cientista denuncia – como já havia feito anteriormente – o método de avaliação do teste que consiste em testar cada substância ativa, mas não necessariamente toda a preparação comercial de toxicidade a longo prazo, ou seja , resultante de contatos repetidos ao longo do tempo .
 
Um sistema de avaliação “não completamente satisfatório
 
Um pesticida (herbicida, inseticida ou fungicida) é composto por uma substância ativa associada a um ou mais coadjuvantes (solventes, conservantes, agentes tensioactivos) para formar a preparação que será comercializada. Exemplo do Roundup, o herbicida mais vendido no mundo. A substância ativa é o glifosato, ao qual se vai acrescentar mais um produto que lhe permita aderir à folhagem das plantas.
 
O Inserm também salienta que “solventes incorporados a produtos comerciais influenciam na passagem de substâncias através da pele, mas raramente são levados em conta nos estudos”. A partir de uma mesma substância ativa  pode haver “300 preparações comerciais diferentes”, afirma Marc Mortureux e “não há nenhuma maneira sistemática de testes de toxicidade crônica, a longo prazo, em cada uma das formulações ” .
 
Este sistema de avaliação “não é inteiramente satisfatório”, segundo o chefe da agência de saúde. Daí o pedido da ONG
Gerações Futuras  de que “os testes sobre os efeitos crônicos de formulações sejam obrigatórios a nível nacional e europeu o mais rápido possível, pois a presença de coadjuvantes aumenta consideravelmente a toxicidade. “
 
No entanto, de acordo com um relatório de uma comissão parlamentar em 2012 intitulado ” Pesticidas: em direção ao risco zero?”, “a avaliação do risco de pesticidas na saúde humana exige a mobilização de recursos consideráveis ​​dificilmente alcançáveis no momento” .
 
Encontrar testes alternativos à experimentação animal
 
Os dados das indústrias não estão inteiramente disponíveis,  e faltam recursos financeiros e informações  para realizar estudos toxicológicos, o monitoramento de usuários é muito fragmentado e complexo, dado o número de moléculas que foram autorizadas ao longo dos anos e os dados estão dispersos em diversas organizações…
 
A estas dificuldades acrescenta-se  uma outra questão de método. “Os testes de toxicidade crônica são feitos por  testes em animais”, alerta Marc Mortureux .
 
O desafio é, portanto, encontrar “métodos alternativos aos testes em animais para detectar situações que exigem uma atenção especial e possíveis testes de longa duração em misturas”.
 
Para este especialista do risco sanitário, há “grandes desafios por enfrentar e ao mesmo tempo a problemática das associações e desreguladores endócrinos ainda à espera de uma definição de Bruxelas.
 
 
Fonte: La Revue du Vin de France em 10/03/14( Com AFP)

 

About silviafranco

Wine writer.
This entry was posted in Uncategorized and tagged , . Bookmark the permalink.

2 Responses to Agrotóxicos: riscos à saúde a longo prazo ainda mal avaliados

  1. Quando se trata de artigos publicados por Séralini e seus colegas, é preciso ter muita cautela para não cair numa esparrela. Este novo artigo é cheio de erros. Sugiro a leitura de http://genpeace.blogspot.com.br/2014/03/herbicidas-e-surfactantes-toxicidade.html

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s