Dilema: o biodinâmico que se recusa a pulverizar suas vinhas e a doença desconhecida. A nova filoxera?

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Dilema: o biodinâmico que se recusa a pulverizar suas vinhas e a doença desconhecida. Uma nova filoxera?

A acusação do enólogo biodinâmico da Borgonha, Emmanuel Giboulot, por se recusar a pulverizar suas vinhas contra uma doença que alguns comparam à filoxera, expôs um dilema ético complicado.

Os cientistas geralmente não são conhecidos por serem sensacionalistas e, por isso, ninguém imagina que eles falem de modo leviano quando comparam a mortal doença da vinha flavescence doree ao bicho da filoxera que devastou grandes áreas de vinha – e muitos meios de subsistência – em toda a Europa no final do século 19 .

É um pouco irônico que a agência nacional de pesquisa da França, INRA , acredite que o inseto responsável pela doree flavescence, scaphoideus titanus –  pode ter sido contrabandeado para a França por causa do porta-enxerto americano que foi importado para ajudar a subjugar a filoxera um século atrás.

Pesquisadores e produtores de vinho em toda a Europa têm acompanhado a flavescence doree, flavescença dourada, desde que foi detectada pela primeira vez em Armagnac na década de 1950, mas ainda não há cura e a doença é altamente contagiosa. Ela faz com que as folhas amarelem e as uvas murchem, e os enólogos devem agir rapidamente para arrancar as vinhas infectadas.

“Todos os viticultores lembram a crise da filoxera , e isto representa o mesmo tipo de ameaça “, declara Denis Thiery , diretor de pesquisa da filial Bordeaux, Aquitaine do INRA, para a Decanter Magazine em sua edição de fevereiro.

Como os cientistas lutam para encontrar formas mais eficazes de lidar com a doença, algumas autoridades francesas ordenaram enólogos que  pulverizem plantações como uma medida preventiva.

Emmanuel Giboulot foi manchete internacional ao se recusar a seguir tal ordem, alegando que isso poderia comprometer seus princípios biodinâmicos. Ele é orgânico desde 1985 e seu domaine cobre 10 ha de Rully 1er Cru a Hautes-Côtes de Nuits na Borgonha.

Inicialmente, ele foi ameaçado de prisão, mas pode agora ‘ escapar ‘ com uma multa de € 1.000. Ele está confiante e quase meio milhão de pessoas assinaram uma petição online para apoiar sua posição.

“Eu não quero desfazer décadas de trabalho pela aplicação de um tratamento cujos efeitos sobre a saúde das videiras e do público ainda estão por provar “, disse a Decanter Magazine em uma entrevista anterior .

“Eu não estou querendo ser radical. Eu simplesmente não acredito que o tratamento sistemático – mesmo sem sintomas da doença – seja a solução ” .

O problema de acordo com alguns pesquisadores é a falta de alternativas.

A França tem um plano de ação nacional para reduzir o uso de pesticidas, no entanto, para a flavescence doree, disse Denis Thierry, a pulverização das vinhas é a “única solução a menos que métodos mais diretos contra o próprio patógeno possam ser aplicados “.

” Eu entendo completamente a hesitação de Giboulot “, disse Pascal Chatonnet , enólogo de Bordeaux e pesquisador que tem feito vários estudos sobre o uso de agrotóxicos nos vinhedos. “Mas os tratamentos alternativos ainda não provaram a sua eficácia a longo prazo”.

O que você pensa e como se posiciona?  Giboulot tem o direito de resistir ou é um exemplo de alguém que prioriza princípios sem a devida atenção para conseqüências mais amplas?

Este debate foi originalmente iniciado como a pergunta mensal na edição de fevereiro/2014  da revista Decanter Magazine.

Fonte: texto de Chris Mercer em 24/2/14.

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Wine writer.
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One Response to Dilema: o biodinâmico que se recusa a pulverizar suas vinhas e a doença desconhecida. A nova filoxera?

  1. Rodrigo says:

    Para uma doença que já foi identificada há 60 anos, num mundo com informação em tempo real via Internet, e só ouvimos falar da doença pela primeira vez por causa do caso Giboulot, me parece um tanto exagerada a comparação da doença com a filoxera.
    Também me parece que a aplicação sistemática de pesticidas, que com certeza foi realizada no passado, não resultou no real controle da doença, e portanto não há porque crer que terá resultado duradouro nesta nova tentativa.
    Por isso, acho que Giboulot tem o direito de resistir, sim. E quem aprovou a aplicação compulsória de inseticida em todas as culturas da Borgonha é que tomou uma medida irresponsável, sem atenção para consequências mais amplas.

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