Taças que matam seu vinho. E não é copo de requeijão!

Com-que-taça615Há taças que podem realçar ou “matar” um vinho! E não estamos falando de copo de requeijão! 

Por Silvia Cintra Franco

Você já tentou degustar o mesmo vinho em duas taças diferentes? Aqui não se trata de comparar como se apresenta o mesmo vinho servido 1) em uma taça adequada, 2) em um copo de vidro de queijo fundido. Nada disto! Estamos falando de uma etapa mais avançada, mais além.

Outro dia, quando nos preparávamos para degustar um vinho para recomendar em V&G, acabamos por servir – por pura casualidade –  o mesmo Chardonnay em duas taças diferentes. Uma de degustação de feiras de vinho (aquela taça clássica, mais bojuda) e outra da Riedel, específica para chardonnay, e que pode ir em máquina de lavar.

E – para nosso espanto e desconcerto – descobrimos que os aromas funcionam melhor na taça de feiras, embora para o palato a taça Riedel seja campeã!, Riedel ou qualquer outra marca que tenha o mesmo conceito do qual a Riedel é pioneira.

Mais adiante, substituímos a taça de feiras pela oficial de degustação, a mesma usada pela Wine & Spirit Education Trust e pela ABS. E comprovamos o que temos ouvido de enólogos das mais diversas partes do mundo : esta taça oficial “mata” o vinho!

Assim, munida de espírito cientifico ou mais prosaicamente falando de espírito “tentativa e erro”, passamos em cada degustação a servir o mesmo vinho nas duas taças de modo a apresentar uma nota mais objetiva para a secção de Recomendados.  Hoje usamos as taças clássicas ou de feiras (para aromas) e a Riedel (palato), pois a oficial nós abolimos, embora tenhamos mais de uma dúzia delas em casa por conta dos cursos da Wine & Spirit Education Trust e outros que fizemos. Veja o que deu!

Experiência 1Chassagne-Montrachet 2007  Maison Chanson Père & Fils AOC
É um village muito agradável, harmonioso e equilibrado. Pode-se dizer que é um vinho puro, preciso.

De Montrachet vêm muitos dos grandes vinhos brancos da Borgonha. E 2007 foi safra de uma colheita grande em Borgonha. Colheita grande e não grande colheita, atenção! 2007 foi uma safra média, portanto um vinho para beber logo. Aliás, já não se fazem mais na Borgonha brancos tão longevos. Com exceção, claro, dos Grand Crus. Mas quem pode bancar um Grand Cru?
Na taça de feiras de vinhos:

Nariz: uma explosão de aromas profundos, intensos e envolventes, cítricos, nozes, tostado, madeira delicada e discreta.

Na boca: mineral com leve amargor final.

Na taça Riedel para borgonhas brancos

Nariz: aromas cítricos, algo untuoso ou manteiga.
Na boca: uma explosão com sabores de frutas secas, algo tostado e cítrico. Um branco de bela acidez e mineralidade.
Chassagne-Montrachet Maison Chanson 2007 por R$247 na Vinci.

Experiência 2La Chablisienne Chablis 1er Cru Côte de Léchet

Na taça de feiras de vinhos

Nariz: O aroma já sobe intenso da taça deitada contra a superfície branca para verificar o visual do vinho. Aroma intenso de flores brancas, frutas secas, mel na taça de degustação.

Palato: macio, muito agradável e fresco.

Na taça Riedel para borgonhas brancos

Nariz: Aromas de flores brancas.

Palato: este Chablis é intenso e aveludado. Com uma elegante citricidade. Mineral. A acidez é muito agradável e refrescante.

Um belíssimo branco de Chablis de uma cooperativa de reputação de grande qualidade, La Chablisienne. Boa relação preço qualidade. La Chablisienne Chablis 1er Cru Côte de Léchet na Todovino por R$112,90

Experiência 3Château Roques Mauriac 2006 Classic

Château Roques Mauriac 2006 Classic
Produtor Château Clos St Emilion Philippe
Vincent Levieux. Blend de Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc

Na taça de feiras. Nariz: aromas de frutas negras maduras. Palato: fino e médio para magro corpo.

Na Riedel para Bordeaux. Nariz: aromas mais nublados. Palato: um vinho vivo, interessante, elegante, definitivamente de médio corpo e saboroso.

Château Roques Mauriac 2006 Classic é um Bordeaux Superior da AOC Bordeaux Superior BB, bom e barato. Por R$82 na Vinea.

Experiência 4 Usamos 3 taças: Oficial, de Feiras e Riedel

Desta vez acrescentamos uma taça de degustação oficial – a mesma usada pela Wine & Spirit Education Trust e pela ABS – e também colocamos mais vinho na taça Riedel, para verificar se era por falta de vinho que o nariz nela não se expressava.
Erasmo 2007 Viña La Reserva de Caliboro

Erasmo vem do Vale do Maule, Chile, produzido pelo Conde Francesco Marone Cinzano (produtor de grandes Brunellos na Itália). Erasmo 2007 é um blend feliz de cabernet sauvignon, cabernet franc e merlot. Recebeu 95 pontos no Guia Descorchados 2012Melhor Assemblage. 

Na Taça Oficial de Degustação. Nariz: frutado, frutas negras. Palato: saboroso e com final de ligeiro amargor.

Na Taça de Feiras. Nariz: Frutas negras, madeira, chocolate, floral, frutas maduras, complexidade. Palato: saboroso (sim, mas não descobrimos mais nada!)

Na Taça Riedel. No nariz, a taça Riedel, mesmo contendo maior volume de vinho, segue sem expressar tudo o que a taça de Feiras expressa. No palato: que abundância de sensações táteis e de frutas maduras, mentol! O vinho comparece sedoso, de médio corpo, boa acidez, equilibrado.

Erasmo 2007 Viña La Reserva de Caliboro por R$90, é um vinhaço!Importação da Franco Suissa. 

 

Conclusão e uma sugestão

Esta experiência – que repetimos outras vezes e não transcrevemos para não tornar repetitivo o artigo – comprovou algo que temos ouvido de diversos enólogos: a taça oficial de degustação “mata” os vinhos. E eles têm toda razão! Esta taça não favorece nenhum vinho, bem ou mal feito.

Desde então ao analisar os vinhos para recomendar em Vinho & Gastronomia, usamos para analisar aromas a taça de feiras de vinho – ou  seja, as clássicas para vinhos – e para levar à boca, vamos de taça Riedel.

Sugerimos, entretanto, por uma questão de espírito científico, que outros enófilos repitam esta experiência, já que os cânones científicos apenas validam estudos após a repetição da experiência por outras pessoas não ligadas ao grupo original.

E, enquanto novos estudos não forem feitos para validar ou desacreditar esta experiência, ou mesmo para inventar uma taça mais completa, sugerimos aspirar numa taça e beber em outra!

About silviafranco

Wine writer.
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