To be or not to be : o que faz uma safra ser vintage?

Está aí uma pergunta – o que faz um champanhe ser
vintage?- que a resposta fácil e batida, de que se trata de um ano melhor do que os outros, não responde.

Até a manhã da segunda-feira passada, dia 10 de
outubro, eu me contentava com esta resposta vazia. E nem sabia do mundo de arte, técnica e paixão ocultas dentro das caves que eu iria visitar logo mais. Saí cedo,
uma hora antes preocupada com o trânsito, que trânsito?!, para vencer os 29 km que separam Reims, onde me hospedava, de Epernay onde está a Moët et Chandon há 250 anos.

Vintage: to be or not to be. Os porquês e os quandos.

Por trás de uma vintage há muito mais do que simplesmente um ano bom, melhor do que os outros como se costuma explicar. Pelo menos na Moet. E Marc Brevot, enólogo do time da casa, revela com emoção e paixão contidas, mas perceptíveis no vídeo, os porquês e os quandos dessa importante decisão.

Foi fantástico poder captar numa descida às caves da Moet Chandon toda a paixão e entusiasmo que existem por trás do cuidado, da organização estabelecidos no 29 km de caves, a mesma distancia entre Reims e Epernay! Por trás da “vitrine” de fundos de garrafas, escondem-se oito metros
de profundidade e ali repousam, em cada nicho!,  por volta de 30 mil garrafas de champanhe, criando aroma, complexidade, sonhos, emoção e delicadeza.

Em algum lugar desse labirinto, está o Grand
Vintage Reserve
, um lugar especial onde repousam os champanhes vintage, feitos não apenas ou exatamente porque era um ano especial como se costuma generalizar, mas porque naquela safra daquele ano uma casta, um climat, um
aroma se sobressai de uma forma especial, diversa e sem comparações com as outras
safras e transforma o champanhe daquele ano em algo mais do que especial:
único, diferente. “Porque o que é especial sobre uma vintage é sempre a
recriação do know how da Moet Chandon e esta peça única, a vintage que não vai se parecer com nenhuma outra que esteja lá”, comenta Brevot.  Na Moet entra para o “rol da fama” (a sequência luminosa de datas da foto), a lista histórica de todas as vintages, apenas a safra que traz algo interessante, muito especial e único, sem similar às outras vintages, algo específico daquela safra, intangível pelas palavras, mas ao
alcance das sensações e que vale a pena compartilhar com as pessoas, como diz
Marc Brevot em inglês no vídeo. A primeira é de 1842 e por ora a última será a
de 2002.

Arte e artesanato

Sempre se pensa em enólogo como técnico, nunca como chef, o artista capaz de criar. Pois lá no escuro das caves, degustando as vintages 2002 e 1992, pude observar a paixão e a intensidade com que Marc Brevot fala de champanhe. Não há dúvidas: por trás de um enólogo pode estar, e na Moet está, um artesão, um artista comprometido com a arte. Que outra coisa não é a arte senão fazer com talento e técnica (e um sopro de inspiração) o belo e o único? E de quebra, no caso do enólogo, com desprendimento e consciência do caráter fugidio, borbulhante de sua arte que se esvai nos segundos de um gole prazeroso.

Degustação

Na Grand Vintage Reserve degustamos:

Non vintage Moet et Chandon Imperial, característica da casa, cheia de vitalidade e brilho, uma bela mousse, fresca, aromas de frutas brancas, pera, borbulhas finíssimas, persistentes e mínimas.

Moet et Chandon Imperial Rosé, com termovinificação da pinot meunier, é um champanhe extrovertido, expansivo, muito franco. Aromas de frutas de verão. Alegre, fina e elegante.

 Moet et Chandon Vintage 2002 é evoluído, aveludado. É como uma onda, uma vaga que quebra na praia. Este vintage de início é grande, potente e à medida que chega à praia, se quebra e se desmancha na boca como a espuma na praia. E ali se mantêm a essência do vinho e da fruta. Em suma complexo e
aberto. Acompanhou com graça o foies gras com peixe (podem se admirar, ficou ótimo) do almoço que a Moet amavelmente me ofereceu.

 Moet et Chandon Vintage 1992 é mais potente, mais complexo, generoso, magnífico. Aromas de ervas de Provence, um toque defumado. Potente, por ser um champanhe de safra mais antiga, permite uma cuisine também mais potente: carne vermelha.
Acompanhou muito bem o cervo, figo e castanhas que o chef gentilmente cortou para mim, pois eu estava com o braço quebrado de uma queda, literal, do cavalo.

 Moet et Chandon Vintage Rosé 2002, que também acompanhou a sobremesa do almoço, tem maior complexidade que a Imperial Rosé e suas berries, vão das vermelhas às negras. Um vinho sedutor, mais quente, mais floral, aromas de botões de rosas, glamoroso e elegante.

Os champanhes, me deu a dica Brevot, devem ser tomados a 12ºC, i.e., a garrafa a 10ºC para que o líquido venha a 12ºC e revele as nuanças e sutilezas todas.

Retornei ao Brasil no dia seguinte, e para não cometer a mesma desastrosa falha de Napoleão, comprei um Moet  Chandon Vintage 2002 para me garantir nas batalhas
da vida e, quem sabe, nunca mais quebrar o braço. E ao chegar, já tomada de saudades de um bom Moet Chandon Imperial, “se me dei de consolo” um almoço no bistrô Chef Rouge, onde se pode tomar Moet Chandon Imperial em taça e também comprar a garrafa a preço de loja.

Silvia Cintra Franco viajou às próprias expensas, de braço quebrado e valeu muito a pena. Visitas à Moet et Chandon podem ser reservadas pela internet: www.moetchandon.com

About silviafranco

Wine writer.
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