Orgânico, bio, natural e sem SO2? Só com muito decanter!

Não deguste vinho orgânico e sem sulfito sem decantar várias horas antes.

Já fiz esta experiência de degustar vinho sem sulfitos sem decantar antes. Um desastre! O vinho era o Fvlvia Pinot Noir e eu havia convidado ninguém menos do que Jô Barros, campeoníssima sommelière, para degustar comigo.

 

Tanto os aromas no nariz, quanto os sabores no palato estavam meio esquisitos, sensações de agulhas pelo meio.

 

Fiquei realmente embaraçada, morri de vergonha e só não joguei fora o vinho, porque era Fvlvia Pinot Noir do amigo Marco Danielle, vinhateiro do sul, que está na linha de tiro e na alça de mira de dez entre dez fóruns de enologia.

 

Guardei o Fvlvia Pinot Noir na eurocave e abri outro vinho.

 

No dia seguinte, voltei a provar o vinho, já estava melhor, mas ainda assim voltou à eurocave.

 

No terceiro dia, o Fvlvia Pinot Noir  ressuscitou em todo seu esplendor e glória. Justamente quando chegava em casa a edição de fevereiro da Revue du Vin de France com um instigante artigo sobre o assunto.

 

Segundo Antoine Gerbelle e Denis Saverot da Revue du Vin de France, a persistência ou fin de bouche de numerosos vinhos bio podem decepcionar, parecem curtas por não serem maquiadas. Além do que a regra de ouro dos vinho “bio” consiste em recusar todo artifício, principalmente os químicos: uso de leveduras selvagens, nada de chaptalização e uso zero ou quase zero de dióxido de enxofre (=anidrido sulfuroso). Mas como dizem os articulistas, não é um dogma não usar o SO2, embora seu uso pelos bio seja mínimo comparado com as práticas do mercado; de qualquer forma os “bio” e orgânicos buscam outras formas para proteger o vinho da oxidação.

 

Andrew Jefford da Decanter afirma categoricamente, no último número da revista,  que é um problema a recusa dogmática do uso de sulfitos para estabilizar os vinhos naturais e que muitos deles têm mau cheiro, são ácidos e grosseiros.  Por isso, antes de  degustar os vinho bio e orgânicos estes devem ser melhor decantados.

O 1º contato com um bio ninguém esquece

Normalmente o primeiro contato com um vinho bio, aberta a garrafa, é mais difícil. Eu diria, nada agradável. Pode-se “sentir le poulailler” (algo galináceo), os aromas fechados, ácidos no primeiro momento. E quando o vinhateiro reduz drasticamente o SO2, há um incremento nas doses de CO2 que dá aos vinhos um caráter frisante, as tais agulhas que senti ao abrir o Fvlvia de Danielle. Gás carbônico conjugado à redução de anidrido sulfuroso é traumatisante para os aromas, sobretudo dos tintos, afirma Jefford.

Ciente dos problemas, abri ontem o Fvlvia 2008 Cabernet Franc do Atelier Tormentas e tratei de usar todo o meu equipamento de decantação, que não é pouco: um Soirée, um Vinturi e um decanter para abri-lo em meia hora. Um sucesso. O vinho está redondo, saboroso e potente. Viva a decantação!

Enfim, é possível venha a ser uma realidade o que os autores predizem: que em 30, 40 anos ninguém mais há de falar de vinho bio, porque será uma expressão datada, pois os vinhos serão todos bio. Embora Andrew Jefforf da Decanter afirme que embora hoje na moda, no futuro apenas os melhores vinhos orgânicos hão de sobreviver. Está aberto o debate!

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3 Responses to Orgânico, bio, natural e sem SO2? Só com muito decanter!

  1. Andy says:

    Silvia, olha que coincidência: estou preparando um artigo hoje exatamente sobre vinhos naturais e meu ceticismo em relação a eles. Vai pro ar hoje à noite.

    Mas vou dizer: Esse “FVLVIA Torturas” é de lascar baobá, decantado ou não. Pra mim, a maior fraude enológica de todos os tempos no Brasil.

  2. Luiz Cola says:

    Prezada Silvia,
    Por coincidência, recentemente abri um Tormentas 2007, às cegas, e sem fazer nenhuma aeração. Resultado: um aroma meio desagradável e persitente de “uva mal fermentada”. Apenas uns 30 minutos depois é que desapareceu…
    Comentei sobre isso com o Marco Danielle (ele só faltou me bater…) e reafirmou a necessidade de uma demorada aeração para dissipara este “aroma” indesejado.
    Vivendo e aprendendo (e bebendo)…

    Abs,
    Luiz Cola

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