Julia Harding elogia qualidade crescente dos vinhos do Brasil

O amigo Orestes de Andrade Jr informa que Julia Harding, braço direito da mais famosa crítica de vinhos do mundo, Jancis Robinson, acaba de divulgar suas opiniões sobre os
vinhos brasileiros no site www.jancisrobinson.com. Ela fez questão se ressaltar a qualidade crescente dos vinhos brasileiros. No site, ela publica notas de degustação de 138 rótulos de 16 vinícolas (Aurora, Casa Valduga, Don Giovanni, Don Guerino,
Don Laurindo, Dunamis, Geisse, Lidio Carraro,
Miolo, Piagentini, Pizzato, Perini, Peterlongo, Salton, Sanjo e Santo Emílio) que ela provou no Brasil.

A última vez que Julia havia degustado os produtos verde-amarelos foi há seis
anos, quando estava selecionando rótulos de produtores para a 6ª edição do
Atlas Mundial do Vinho. “Não tenho dúvida dos progressos que têm sido
conquistados desde então, não apenas nos vinhos mais ambiciosos, mas também nos
baratos vinhos varietais”, destaca. “O cultivo de Vitis vinífera tem ocorrido
principalmente nos últimos 20, 30 anos, por isso que o progresso é tão
impressionante”, acrescenta.

As notas (em uma escala cuja pontuação máxima é 20) atribuídas aos vinhos brasileiros foram de 15 a 18. Teve apenas um 14,5 e a maioria dos rótulos ganhou 17 de nota média – índice conferido aos melhores vinhos do mundo por Julia Harding e Jancis Robinson. Dois vinhos (Lidio Carraro Elos Cabernet Sauvignon/Malbec 2008 e Lidio Carraro Quorum Grande Vindima 2005) e um espumante (Cave Geisse Brut 1998) receberam as
maiores notas (18) entre os 138 produtos verde-amarelos degustados. “Os vinhos
brasileiros se saíram muito bem. Grandes vinhos franceses de Bordeaux e
Borgonha costumam receber notas de 17 a 18, assim como os champagnes
franceses”, compara a gerente
de Promoção Comercial do Wines of Brasil, Andreia Gentilini Milan.

Como já virou rotina os especialistas estrangeiros e nacionais elogiarem a alta qualidade dos espumantes brasileiros,
Julia Harding fez um comentário original. “Vejo mais potencial nos vinhos
brasileiros do que nos espumantes, que, a meu ver, estão no ápice, enquanto os  tintos ainda têm muito a ser explorado”, vaticina.

Sobre os vinhos tintos do Brasil, a  britânica verificou diferentes estilos dentre os rótulos degustados. Ela gostou bastante do estilo geral, que mantém o frescor da fruta, a pureza e o álcool moderado. “O vinho brasileiro é leve e prazeroso, pode ser bebido mais de uma  taça”, observa. “A qualidade me impressionou, especialmente porque não provei  nenhum vinho ruim ou defeituoso. Ao contrário, todos estavam bem balanceados,  desde os mais baratos aos mais caros”, elogia.

Preferências

As variedades mais apreciadas por Julia
nos vinhos brasileiros foram Cabernet Franc, Tannat, Cabernet Sauvignon e a
Merlot. Mas ela fez uma ressalva importante. “Há muito Merlot no mercado”.
Julia ficou surpresa com a jovialidade dos vinhos brasileiros. “Mesmo após
quatro, cinco anos, eles mantém muita fruta e frescor. Por isso os vinhos do
Brasil não são exóticos, são sim frescos e puros”, sentencia.

Sobre os espumantes, Julia diz que os
elaborados pelo método Charmat se destacaram mais, até porque ela esperava mais
complexidade nos do método tradicional. “Devo abrir uma exceção para os
espumantes feitos pelo método tradicional da Vinícola Geisse”, salienta.
Segundo Julia, os espumantes brasileiros têm mais fruta e são bem mais
interessantes do que os Prossecos e as Cavas com preços até 6 libras. Acerca
dos espumantes moscatéis, que na Inglaterra concorrem com os Astis, ela acha as
borbulhas brasileiras mais delicadas e com mais qualidade.

A respeito dos vinhos brancos, a britânica diz que não degustou amostras
suficientes para ter um parecer. Julia recomenda que seria um erro focar em uma
variedade emblemática para representar o Brasil. “É melhor trabalhar algumas
que sejam fortes, mas também não procurem centenas de variedades”, sugere.

Uma crítica feita por Julia é a  influência demasiada de sabor doce de carvalho americano, mesmo quando usado  com moderação, que contrastava com o frescor da fruta e a acidez brilhante.  Para encerrar, ela aposta em um bom futuro para os vinhos e espumantes  brasileiros, desde que se mantenha boa qualidade por um bom preço, mantendo os  frescos e bem equilibrados estilos, com álcool moderado e indo além das  variedades tradicionais, como Merlot e Chardonnay.

Visita

A primeira visita de Julia Harding ao Brasil
ocorreu de 1º a 4 de março deste ano na Serra Gaúcha, a convite do Projeto
Imagem Internacional do Wines of Brasil, realizado em parceria pelo Ibravin e
pela Apex-Brasil. Junto com o norte-americano Theodore Michael Luongo,
jornalista independente da revista Wine Enthusiast, uma das mais importantes
dos Estados Unidos, Julia Harding visitou nove vinícolas (Miolo, Pizzato, Casa
Valduga, Geisse, Perini, Aurora, Lidio Carraro, Don Guerino e Salton) e
degustou produtos de outras sete empresas – Dunamis, Don Laurindo, Don
Giovanni, Peterlongo, Piagentini, além de Sanjo e Santo Emílio, do Planalto
Catarinense.

Nos dias 6 e 7 de março, Julia e Loungo assistiram aos desfiles das escolas de
samba do Rio de Janeiro no camarote da Apex-Brasil na Marquês de Sapucaí, que
foi abastecido por vinhos e espumantes brasileiros. “O interesse de uma das
mais importantes conhecedoras de vinhos do Brasil, braço direito de Jancis
Robinson, é um reconhecimento sobre o estágio avançado de qualidade que os
vinhos brasileiros alcançaram”, afirma a gerente de Promoção Comercial do Wines
of Brasil, Andreia Gentilini Milan. Ela lembra que entre os livros escritos e
editados por Jancis Robinson e Julia Harding está o conhecido Atlas do Mundo do
Vinho, que cita os vinhos brasileiros.

O norte-americano Theodore Michael Luongo veio com
uma missão especial: produzir um suplemento exclusivo sobre os vinhos
brasileiros para a revista Wine Enthusiast, que será publicado em setembro.

DECLARAÇÃO

“Eu retornei com muito mais do que páginas sobre degustação de vinhos. Os
vinhos não representam somente o líquido da garrafa, mas também as pessoas e os
lugares, e eu retornei com memórias pessoais de um lugar maravilhoso e de
pessoas fantásticas com uma habilidade incrível de serem eficientes e
simpáticas e de sorrirem quase o tempo inteiro. Foi como respirar ar puro após
um longo inverno britânico.” Julia Harding

Confira as impressões de Julia Harding sobre os
vinhos brasileiros

 

– Acidez fresca e álcool moderado – bebível e digerível e bom
acompanhamento para comidas (agradeço a Jancis pela palavra digerível, a qual
eu utilizo com grande elogio).

– Sabores puros e brilhantes da fruta sem ser muito doces ou pesados – e
a fruta parece ser notável ao se manter fresca num primeiro plano até mesmo
após vários anos engarrafada.

– Equilíbrio e sutileza em todos os níveis de preço.

– Bem elaborados – não degustei nenhum vinho com problemas ( embora não
esteja dizendo que não exista nenhum)

– Não são maduros demais ou oxidados – e não geralmente OTT e não muita
evidência de carvalho demasiado.

– Vinhos tintos secos possuem fruta fresca que não parece desaparecer e
não são muito doces.

– Taninos saborosos e secos.

– Os vinhos brancos foram os menos impressionantes (embora eu tenha
degustado muito poucos)

– Os espumantes têm mais sabor que qualquer Cava ou Prosecco.

– Espumantes elaborados pelo método tradicional, com algumas exceções
como Geisse, geralmente não demonstram muito caráter autolítico e não
sobressaem facilmente espumantes método Charmat.

– Muitos espumantes pelo método Charmat estavam deliciosamente frescos e
vivos.

– Rosés secos demonstram potencial (embora digam que é difícil vendê-los
no mercado doméstico).

– Algo que não mencionei mas que me incomodou em alguns vinhos foi o
gosto adocicado influenciado pelo carvalho americano, até mesmo quando usado em
moderação, o qual parecia se relevar pelo frescor contrastante da fruta e
acidez marcante. O custo relativo do carvalho americano x francês são a razão
óbvia pela prevalência do primeiro, mas eu argumentaria pela utilização de mais
vinhos sem carvalho que revelam a pureza da fruta.

Fotos de Orestes de Andrade Jr, assim como o texto.

About silviafranco

Wine writer.
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