Corpus Christi e Vinho, o Sangue do Deus

O feriado religioso de Corpus Christi tem na verdade
sua origem muitos anos – ou séculos – antes do nascimento de Cristo. O ritual
de beber o sangue do deus remonta às cerimônias em honra a Baco (seu nome
romano) ou Dioniso, e estão ligados ao orfismo.

Orfeu, aquele mesmo que desceu aos Infernos para resgatar sua amada Eurídice,
era um devoto de Baco e seus seguidores tinham como ritual beber o sangue do
deus Baco, i.e., o vinho. Aliás, Baco é o único deus da mitologia grega que
aparece em esculturas também como um bebê, como uma criança e como um jovem (Hércules que às vezes comparece segurando uma serpente não é deus, mas um herói ou semideus.).

Legenda: A jarra de serviço do vinho data de 450 a.C e a pintura apresenta mulheres reunidas no ritual de Dioniso para beber o vinho. A máscara do deus está no centro e as folhas e ornamentos sugerem o corpo. Metropolitan Museum de Nova York.

Legenda: Bacante – Mulher dançando. Etrúria 500 a.C. Fine Arts Museum de Boston

As festas ou festivais em honra a Baco estavam tão impregnadas na civilização
romana (conquistadora e herdeira da grega) que a Igreja Católica decidiu – já
que não era possível erradicá-las – transformá-las em ritos cristãos. Por
exemplo, o Solstício, no dia 25 de dezembro no hemisfério norte, uma data
ritual e importante, foi transformada na celebração do nascimento de Cristo.

Assim, o costume de beber o sangue do deus Baco – que era o vinho – passou a ser o de beber o sangue de Cristo, uma transposição inspirada, sem dúvida, em  rituais da mitologia greco-romana. Daí também advém a missa, inspirada nos  antigos rituais em honra à deusa Juno. Neste rito que se dava no templo  dedicado à deusa, havia o momento do ofertório, quando os fiéis entregavam suas  oferendas (cordeiros, pombas, bois) e após este, as sacerdotisas de Juno  consagravam os animais à deusa, coziam num lume junto ao altar partes dos  animais e os davam aos fiéis que para comer. No final do rito, a sacerdotisa
voltava-se para os fiéis e dizia: “ite, missa est”. Para quem já assistiu à
missa em latim, sabe que estas são as últimas palavras proferidas pelo
sacerdote católico.

O fato é que o vinho era tão importante na antiguidade que fez por merecer ser
identificado como o sangue de deus. Não raro o vinho era bebida mais saudável
que a água que tinham à disposição, servia também para aliviar dores e como
remédio, como aconselhava Plínio, o Velho, entre outros.

Portanto, este feriado de Corpus Christi pode muito bem nos recordar a fundamental importância do vinho na vida da humanidade, como alimento da alma e do espírito. As fotos de peças usadas no serviço do vinho e moedas que celebram a importância de Baco estão no Metropolitan Museum de Nova York e no Fine Arts Museum de Boston. As fotos foram tiradas por mim.

About silviafranco

Wine writer.
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