“Vinho é mistério, vinho é emoção”

Se Guernica de Picasso e Vitória de Samotrácia fossem vinhos, que nota você lhes daria? 100 para Guernica e 95 para Samotrácia porque lhe falta cabeça ou 90 para Guernica porque tem cabeça demais?

Tive a oportunidade de visitar a Quinta de Monte D’Oiro, Estremadura, de José Bento dos Santos em 2009. José Bento faz parte de uma classe especial de homens dedicados ao vinho. Vai além da produção: é um homem culto de coração arrebatado. Um caso feliz em que a cultura vai de mãos dadas com a paixão.

A entrevista é tão interessante e apaixonada que não me foi possível fazer todos os cortes necessários para reduzi-la a assépticos 3 minutos. Por isso, editei em 3 vídeos. Ai vai o primeiro.

Nela, José Bento discute o caráter transcendental, cultural, histórico e de civilização do vinho, que nas últimas décadas foi reduzido a números e a uma análise redutora que verifica apenas qualidades químicas e organolépticas. É o conceito americano de que avaliação se faz por evidência, isto é, números e estatísticas são a única coisa que importa.

As notas inflacionaram o valor monetário e empobreceram o valor cultural e transcendental do vinho. Não sem razão, o sítio da Quinta do Monte D’Oiro abre com esta inscrição: “Por detrás de cada vinho, esconde-se uma história, um gosto, uma cultura, um sonho.”

Realmente, como dizia Émile Peynaud, a análise fria é necessária para avaliar as qualidades intrínsecas do vinho – seja como produtor seja como crítico. Infelizmente, como diz o ditado americano: jogou-se fora o bebê junto com a água do banho. Os números acabaram por reduzir a transcendência, o prazer e a emoção de uma bebida que jamais é igual a si mesma. Cada garrafa de vinho é diferente de outra, embora o vinho seja da mesma safra e produtor, pois o vinho na garrafa, como ser vivo, evolui e amadurece à sua maneira e a seu próprio tempo. O mistério do vinho está em analisá-lo como um todo, declara – com razão –José Bento dos Santos.

José Bento dos Santos  também compara vinhos à música. Há canções deliciosas cujas melodias são simples e encantadoras. Assim são muitos dos vinhos simples que encantam e emocionam. Entretanto, a música mais elaborada de um Mozart e de um Beethoven – assim como os vinhos mais complexos- também encanta e seduz. Mas exige uma bagagem cultural prévia.

José Bentos dos Santos é também um refinado gourmet e anfitrião generoso, pois ao final do delicioso almoço harmonizado com os belos vinhos da casa (Madrigal, Têmpera, Lybra, Aurius e o Reserva 2004), foi-nos servido um Nuits St Georges Maison Leroy 1989, indescritível e como diriam os espanhóis: entrañable!

A Quinta do Monte D’Oiro produz grandes vinhos com a syrah, a “casta estrangeira” portuguesa na qual é uma expert. Graça Gonçalves é a enóloga da Quinta que hoje conta com uma joint venture com Michel Chapoutier e do qual já falamos anteriormente.

About silviafranco

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