Como se fazem os grandes terroirs

Os grandes vinhedos não se fazem por acaso e nem devem sua excelência somente ao terroir. Se os vinhos de Bordeaux, Douro e Toscana são reconhecidos no mundo inteiro, isto se deve a parâmetros geopolíticos e históricos que lhes asseguraram a supremacia sobre outras regiões

Os grandes vinhedos não se fazem por acaso e nem devem sua excelência somente ao terroir. Um artigo publicado pela revista francesa La Revue du Vin de France (Nov 2009) traz um estudo interessantíssimo, assinado por Jérome Baudouin, sobre o assunto. Algo nele me fez lembrar “A origem da riqueza das nações” de Adam Smith. Baudouin analisa as razões pelas quais bons terroirs vêm produzindo grandes vinhos há séculos e outros apenas recentemente. Uma razão se deve porque os grandes vinhos são produzidos em regiões com melhor infra-estrutura para produção e comercialização. É uma boa razão, mas não suficiente. Como disse o geógrafo Roger Dion sobre os fatores da qualidade dos vinhos: “a função do terreno na elaboração de um grand cru não vai muito além daquela da matéria na elaboração de uma obra de arte” (“Le paysage et la vigne, essais de géographie historique” de Roger Dion, 1990). Radical, não? Mas ele acredita que se os vinhos de Bordeaux, Borgonha, Douro e Toscana são reconhecidos no mundo inteiro, isto se deve a parâmetros geopolíticos e históricos que lhes asseguraram a supremacia sobre outras regiões, algumas hoje desaparecidas. Assim, a diferença entre crus se dá sim graças à qualidade do terroir, mas a diferença entre as regiões vinícolas se dá por outros motivos que vão além do terroir.

A qualidade de um vinho é a expressão de um meio social. Havia dois tipos de vinho na França antiga, o de consumo diário e o de grandes ocasiões. Os camponeses produziam os primeiros, enquanto que os grand crus de hoje (de origem essencialmente urbana à exceção da Borgonha) eram produzidos pelos burgueses das cidades para seu consumo próprio e para o mercado urbano ( antes mesmo de se pensar numa comercialização para lugares mais distantes). Estes grandes vinhedos acabaram por se distinguir dos demais por sua capacidade de comercialização de sua produção, como declara outro geógrafo, Jean-Claude Hinnewinkel (Les terroirs viticoles, origines et devenir”, ed. Féret, 2004), professor na universidade de Bordeaux e especialista na gestão de vinhedos. Pois este é o parâmetro que se verifica sempre: os grandes vinhos são mais caros de produzir e exigem que seus proprietários tenham recursos para garantir a qualidade de sua produção e assim se destacar da concorrência. Além disso, as melhores terras sempre foram disputadas desde a Roma Antiga até Luis XV: os ricos buscavam que o poder público limitasse, interditasse ou suprimisse as plantações populares, numa ação que visava valorizar seus vinhedos. Portanto, a qualidade de um vinho é, pois, a expressão de um meio social.

Ação local e coletiva. Os grandes vinhedos nascem de uma vontade local e coletiva. Embora Bordeaux, Borgonha, Porto e Toscana sejam definitivamente regiões diferentes, o que elas têm em comum é que cada uma delas tem uma forma de preservação que lhes é própria assim como também um modelo econômico que lhes permite sobreviver em face da adversidade.

Desenvolvimento garantido pela política, produtores e mercadores. O desenvolvimento dessas grandes regiões vinícolas foi garantido pela união de políticos, produtores e mercadores. E tem sido esta estrutura a base do sucesso de grandes vinhedos como os do Douro, Toscana, Bordeaux ou Borgonha. São, pois, vinhedos de origem urbana, lugar por excelência onde se concentram os poderes e onde os produtores estão próximos do poder público. Um exemplo: no séc. 18, o sucesso do vinho do porto é tão grande que resulta em baixa qualidade o que punha em perigo toda a economia. Para prevenir a catástrofe, os produtores do vinho do porto procuraram o primeiro ministro, o marquês de Pombal, para que estabelecesse em 1756 um comitê que garantisse um nível de qualidade de produção. E assim foi que se implantou a primeira apelação de origem controlada da história: para preservar os interesses de produtores e mercadores da bebida.

Os fatores de um grande terroir. Segundo Kees van Leeuwen, winemaker do Château Cheval Blanc, os fatores que levam à criação de um grande terroir são o sol, o clima, as cepas adequadas e a o homem (entenda-se o esforço por buscar qualidade e implantar infra-estrutura econômica). Um exemplo é o Pomerol cuja falta de condições econômicas limitavam sua comercialização e, portanto, sua expressão. Faltava a criação de um negócio potente em Libourne (existente desde a Idade Média, ela se desenvolveu somente a partir dos anos cinqüenta do século passado), entre duas grandes guerras no século passado para que os vinhos do Pomerol adquirissem a reputação que têm hoje. Por isso, Kees van Leeuwen está convencido de que “existem numerosos terroirs adormecidos, porque as condições socioeconômicas ainda não estão reunidas”.

Daí que a criação do Ibravin possa ser visto como um marco na história do vinho brasileiro.

(1)É um estudo sobre três obras: “Les Terroirs viticoles, origines et devenir” de Jean-Claude Hinnewinkel (Ed. Féret, 2004), “Histoire du paysage français” de Jean-Robert Pitte (Ed. Taillander, 1983) e “Le paysage et La vigne, essais de géographie historique” de Roger Dion, 1990.

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