Tradição e modernidade, celeuma e harmonização no II Encontro

Nos painéis de ontem, uma tarde de polêmicas e descobertas, assistimos a um desfile das modernidades e ousadias trazidas por Arthur Azevedo em seu painel Península Ibérica – Nova Dimensão e Modernidade em contraste com a tradição da Borgonha (painel de Olivier Pion) e alguns dos vinhos plenos de tradição e raízes no passado que Patrício Tápia, famoso editor de Descorchados, propôs como Vinhos a degustar antes de morrer .  O Tondônia 1987 estava inteiro e provou ser uma bela viagem ao mundo d’antanho da Rioja clássica com seus vinhos de anos de barricas usadas, em que a cada ano se perde 1 grau de alcool pela evaporação e se ganha outro tanto em oxidação, pois o vinho não é reposto. Um vinho feito como se fazia em 1913, corte de tempranilho (70%), Mazuelo e garnacha. Eu amei, até porque tanto mais velha fico, tanto mais aprecio os vinhos evoluídos… Mas como vinho não é item de fé, discordar é possível, e houve quem tenha apreciado mais a experiência do que o vinho em si. Outro campeão apresentado por Tápia foi um Jerez  de 30 anos da Bodegas Tradición.

Entretanto, o novo estava presente na maioria dos vinhos. Destaco El Pecado do enólogo Raul Perez, garimpado por Ariel Peres (sem parentesco algum) da Casa do Porto, um vinho para enófilos avançados, elegante, fresco e vivo, um pecado de dar gosto… Aliás, os vinhos que Arthur Azevedo apresentou são vinhos inquietantes, instigantes que me recordam um pouco o impacto da música de Igor Stravinsky na Paris do início do século passado: uma música difícil para os acomodados ouvidos da época e que hoje não só é plenamente aceita, como apreciada. Tomem nota aí de outros vinhos stravinskyanos que a Península Ibérica está fazendo: Herdade do Grous, Ramiros 2006 e Mancuso 2006. Da Borgonha, a simples e insuspeita palavrinha climat levantou muito a temperatura e o clima da degustação. Afinal, climat é um conceito restrito (o solo e suas características que podem diferir de outro a poucos metros) à Borgonha onde outra palavrinha simples tem sua melhor expressão: terroir. E Olivier trouxe bons exemplos de climat. O branco Jean Philippe Fichet Mersault Le Tesson 2007 é um borgonha cítrico, consistente, mineral, de ácidez borgonhesa (leia-se pungente) e que fica mais interessante se acompanhado por comida. Entretanto, quando foi servido o Pierre Morey Mersault Les Tessons, ligeiramente botritizado, parecia que o primeiro borgonha perdia terreno e votos: puro engano!, a consistência da qualidade, mineralidade e da acidez do Jean Philippe Fichet Mersault Le Tesson 2007 permaneceu viva e envolvente até o final do painel. Entretanto quando já se acreditava que havíamos provado o melhor (e esta é a grande riqueza de um Encontro como este de Vitória) foi servido o 4º vinho, o Vincent Gerardin Bienvenues Batard Montrachet 2007, mais complexo, mais  consistente, elegante e fino. Uma beleza este II Encontro Internacional, pela possibilidade de se degustar vinhos excelentes em qualidade e de se compartilhar com amantes dos vinhos de todas as tendências.

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