A Alma do Vinho

Já recordava Baudelaire quanta pena e suor são precisos para criar e dar alma ao vinho. Melhor do que os poetas, sabem disso os enólogos e viticultores. “O vinho não é uma receita” declarou Renzo Cotarella, da Marchesi Antinori. “Os grandes vinhos são elegantes, com nuances, que se deixam beber. Não são concentrados nem pesados. O vinho importante deve ter uma alma e exprimir algo de seu”.

 E é Jean-Claude Berrouet, enólogo de 44 safras do célebre Petrus que avisa: “Um grande vinho tem uma forte personalidade, uma identidade, uma marca própria e reflete o terroir”. Ah, e os grandes vinhos não agradam a todo o mundo, afirma. Para ele, a grandeza desses vinhos se expressa melhor na fineza e complexidade do que na potência. “Degustei numerosos crus da moda, criados graças à tecnologia que transmite ao vinho esta expressão anônima que se pode reproduzir onde quer que seja. Para chegar a um vinho de personalidade, o vigneron deve dominar um savoir-faire, sem dúvida, mas jamais forçar a natureza. Não deve tentar impor sua visão”. O resultado é que acabam por produzir os mesmos vinhos, todos parecidos, sem respeitar a diversidade de cada vinhedo. É verdade: a mágica do vinho reside em sua diversidade e cabe a cada um eleger segundo o seu próprio gosto qual vinho lhe cai melhor.

Aqui vão os versos de A Alma do Vinho de Baudelaire, traduzidos por Guilherme de Almeida (ed. Editora 34)

A alma do vinho assim cantava nas garrafas:

“Homem, ó deserdado amigo, eu te compus,

Nesta prisão de vidro e lacre em que me abafas,

Um cântico em que há só fraternidade e luz!

Bem sei quanto custou, na colina incendida,

De causticante sol, de suor e de labor,

Para fazer minha alma e engendrar minha vida;

mas eu não hei de ser ingrato e corruptor,

Porque eu sinto um prazer imenso quando baixo

À goela do homem que já trabalhou demais,

E seu peito abrasante é doce tumba que acho

Mais propícia ao prazer que as adegas glaciais.

Não ouves retinir a domingueira toada

E esperanças chalrar em meu seio febris?

Cotovelos na mesa e manga arregaçada;

Tu me hás de bendizer e tu serás feliz:

Hei de acender-te o olhar da esposa embevecida;

A teu filho farei voltar a força e a cor

E serrei para tão tenro atleta da vida

Como o óleo que os tendões enrija ao lutador.

Sobre ti tombarei, vegetal ambrosia,

Grão precioso que lança o eterno Semeador,

Para que enfim do nosso amor nasça a poesia

Que até Deus subirá como uma rara flor!”

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Wine writer.
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