Vinho, o sangue do deus

O vinho vem acumulando ao longo dos milênios inúmeros significados, muitos deles sagrados. O feriado religioso de Corpus Christi tem na verdade sua origem muitos anos – ou séculos – antes do nascimento de Cristo. O ritual de beber o sangue do deus remonta aos rituais em honra a Baco (seu nome romano) ou Dioniso, e estão ligados ao orfismo. Texto da etiqueta da foto: Fragmento de vaso decorativo (um kalix-krater para misturar vinho, já que não se bebia vinho puro) colocado nos jardins para consagrar estes lugares agradáveis ao deus do vinho, Baco. Apresenta Hermes levando o Baco bebê para a mãe, a ninfa Nysa. Período Republicano Tardio 75-50 a.C. Fine Arts Museum de Boston. Foto Silvia Franco
Orfeu, aquele mesmo que desceu aos Infernos para resgatar sua amada Eurídice, era um devoto de Baco e seus seguidores tinham como ritual beber o sangue do deus Baco, i.e., o vinho. Aliás, Baco é o único deus da mitologia grega que aparece em esculturas também como um bebê, como uma criança e como um jovem (Hércules que às vezes aparece segurando uma serpente não é deus, mas um herói ou semideus). As festas ou festivais em honra a Baco estavam tão impregnadas na civilização romana (conquistadora e herdeira da grega) que a Igreja Católica decidiu – já que não era possível erradicá-las – transformá-las em ritos cristãos. Por exemplo, o Solstício, no dia 25 de dezembro no hemisfério norte, uma data ritual e importante, foi transformada na celebração do nascimento de Cristo.
Assim, o costume de beber o sangue do deus Baco – que era o vinho – passou a ser o de beber o sangue de Cristo, uma transposição inspirada, sem dúvida, em rituais da mitologia greco-romana. Daí também advém a missa, inspirada nos antigos rituais em honra à deusa Juno. Neste rito que se dava no templo dedicado à deusa, havia o momento do ofertório, quando os fiéis entregavam suas oferendas (cordeiros, pombas, bois) e após este, as sacerdotisas de Juno consagravam os animais à deusa, coziam num lume junto ao altar partes dos animais e os davam aos fiéis que para comer. No final do rito, a sacerdotisa voltava-se para os fiéis e dizia: “ite, missa est”. Para quem já assistiu à missa em latim, sabe que estas são as últimas palavras proferidas pelo sacerdote católico.
O fato é que o vinho era tão importante na antiguidade que fez por merecer ser identificado como o sangue de deus. Não raro o vinho era bebida mais saudável que a água que tinham à disposição, servia também para aliviar dores e como remédio, como aconselhava Plínio, o Velho, entre outros. É indiscutível, portanto, a fundamental importância do vinho na vida da humanidade, como alimento da alma e do espírito (se tomado moderadamente).  Ao lado: jarra de serviço do vinho data de 450 a.C e a pintura apresenta mulheres reunidas no ritual de Dioniso para beber o vinho. A máscara do deus está no centro e as folhas e ornamentos sugerem o corpo. Metropolitan Museum de Nova York. Foto Silvia Franco

Bibliografia:
- Johnson, HughThe Story of Wine. New Illustrated Edition. Mitchell Beazley ,Octopus Publishing Group. Great Britain, 2005.
 – Franco, Silvia Cintra e Braune, RenataO que é enologia. Coleção Primeiros Passos. Editora Brasiliense. 2008.
Abbott, Frank Frost – Society and politics in Ancient Rome – Essays and Sketches. 1963, Biblos and Tannen, New York
Ariès, Philippe et Duby, GeorgeDe l’Empire romain à l’an mil. 1985, Seuil, Paris.
Balsdon, John P.V.D. – Roman women, their history and habits. 1975, Greenwood Press, Connecticut.
Johnston, MaryRoman Life. 1957, Scott, Foresman and CO, Glenview, Illinois.
Hooper, Finley AllisonRoman Realities. 1979, Wayne State University press, Detroit
Liberati, Anna Maria, Bourbon, Fabio Ancient Rome, History of a civilization that ruled the world. 1996, Stewart, Tabori & Chang, New York.
Montanelli, IndroHistoria de Roma. 1982, Plaza & Janes, Barcelona.
Orto, Luisa Franchi dell’ Ancient Rome, life and Art. 1982, Scala, Firenza.
Roberts, PaulAncient Rome. 2003, Barnes & Noble, New York
Sinnigen, William GurneeA History of Rome to A. D. 565. 6ª ed.,1977, Macmillan, New York.

About silviafranco

Wine writer.
This entry was posted in Vinho alimento do espírito. Bookmark the permalink.

4 Responses to Vinho, o sangue do deus

  1. Pingback: Tweets that mention Vinho, o sangue do deus | -- Topsy.com

  2. Silvia, adoro mitologia e achei interessante mostrar este pedaço sobre Dionísio para adicionar como comentário.
    ” ..dos amores de Zeus e Perséfone nasceu o primeiro Dionísio, chamado mais comumente de Zagreu. Preferido do pai dos deuses e dos homens, estava destinado a sucedê-lo no governo do mundo, mas o destino decidiu o contrário. Para proteger o filho dos ciúmes de sua esposa Hera, Zeus confiou-o aos cuidados de Apolo e dos Curetes, que o esconderam nas florestas do Parnaso. Hera, mesmo assim, descobriu o paradeiro do jovem deus e encarregou os Titãs de raptá-lo e matá-lo. Com o rosto polvilhado de gesso, a fim de não se darem a conhecer, os Titãs atraíram o pequenino Zagreu com brinquedos místicos: ossinhos, pião, carrapeta, ” crepundia” e espelho. De posse do filho de Zeus, os enviados de Hera fizeram-no em pedaços; cozinharam-lher as carnes num caldeirão e as devoraram. Zeus fulminou os Titãs e de suas cinzas nasceram os homens, o que explica no ser humano os dois lados: o bem e o mal.

    ****
    Dionísio… é frequentemente qualificado como touro pelos poetas, …”devorador de touros”…”o que come carne crua” O despedaçamento do touro, símbolo da força e da fecundidade , se por um lado representava os sofrimentos de Dionísio, dilacerado pelos Titãs, de outro, o fato de os e as Bacantes lhe beberem o sangue e lhe comerem as carnes, pelo rito da omofagia, inseparável do transe orgiástico, configurava a integração total e a comunhão com o deus. É que os animais, que se devoravam, eram a encarnação do próprio Dionísio. De outro lado, despedaçando animais e devorando-os, os devotos de Dionísio integravam-se nele e o recompôem simbolicamente”
    Brandão, Junito de Souza – Mitologia Grega II, Editora Vozes, 2008- pág 118 e 137

    Agora no livro o poder do mito encontramos:
    ” Moyers: Então você acha que a grande vocação da religião é a experiência?
    Campbell: Um dos aspectos maravilhosos do ritual católico é a comunhão. Lá você é ensinado que este é o corpo e o sangue do Salvador. E você toma o toma, volta-se para o seu interior, e eis Cristo agindo dentro de você. É uma maneira de estimular a meditação sobre como vivenciar o espírito em você. Você observa pessoas retornando da comunhão e elas estão voltadas para dentro, realmente estão.”
    ( Campbell, Joseph, O poder do mito,Palas Athenas, 1990, pág 64)

    Achei interessante observar como o mito se repete a muito tempo, com os mesmos elementos. O vinho substitui o sangue real dos animais mas continua tendo o mesmo papel de transportar o divino para dentro de nós.

  3. Jose Luis de Araujo says:

    Menina Silvia
    Tenho te acompanhado pela internet, parabens “Sois uma Virtuose”
    Espero qualquer dias destes TE ENCONTRAR, E lHE DAR UM GRANDE ABRAÇO,
    daqueles que aprecio dar nas pessoas de minha querência.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s